quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ERROS DOS PALESTRANTES SOBRE O TEMA FAMÍLIA (ATUALIZADA EM 03/02/2017)



Sinto-me no dever de dar um esclarecimento sobre o assunto devido as expectativas e cobranças que são jogadas em cima das pessoas onde na verdade deveria só sair do altar aquilo que realmente passou pelo crivo da Palavra de Deus por meio de uma interpretação imparcial, extensiva e mais profunda. Claro que devemos dar os “descontos” nas pregações dadas, uma vez que somos seres humanos falhos e sujeitos a errar. Mas não podemos ser coniventes todo o tempo quando um erro se repete constantemente.


Infelizmente muitos palestrantes não querem mais se dar ao trabalho árduo e que lhe tome o tempo. Vivem de procurar mensagens pré produzidas em internet ou de algum livro, não que seja errado citarmos fontes de livros ou dados ou trechos de material da internet. O problema é que a pesquisa feita é pouco eficaz, apressada, sem uma revisão cuidadosa na Bíblia. O pior são as frases prontas, que muitas vezes a gente nunca encontra a fonte original de quem citou. E nem se quer acha respaldo claro na Bíblia. E assim vamos vivendo, de cada culto da família para outro, de cada reunião de casais para outra, de um seminário da família para outro e pouco se ouve algo que realmente tem relação com o contexto bíblico, principalmente o histórico/cultural. Sem uma exegese exercitada, sem hermenêutica alguma. Apenas papagaios falantes.

Assim, gostaria eu, de expor alguns destes erros, para que as famílias sejam doutrinadas e edificadas no sentido correto do texto bíblico. Uma fez que pouco vão ao culto de doutrina ou escola bíblica apropriado para isso. Então vamos lá, me perdoem os irmãos que já cometerem tais erros, é vivendo e aprendendo, ninguém nunca aprende a andar de bicicleta sem cair não é mesmo? Mas não pretendemos ficar constantemente caindo.

1) O marido é o sacerdote do lar.

Você já ouviu falar sobre isso? Creio que centenas de vezes, caso você seja crente desde jovem ou criança. Todavia há controvérsias sobre essa afirmação. Você já viu na Bíblia essa afirmação? Existe realmente um texto bíblico que diga isso?

O que temos nas Escrituras é que o marido é o “cabeça” da mulher. Exemplo: 1Co.11.3; Ef.5.23. A palavra grega usada em ambos os textos exemplificados aqui é “kephale” nesse caso é uma metáfora de algo supremo, principal, proeminente, mestre senhor. Todavia essa afirmação não diz que o marido é o sacerdote, no caso, seria a palavra grega “hiereus” que, segundo o dicionário grego de Strong, essa palavra associada ao cristão é uma metáfora de todos os crentes que, purificados no sangue de Cristo e conduzidos a comunhão plena com Deus, dedicam suas vidas somente a Ele e a Cristo. Mas, esta palavra não é o caso de “cabeça” (kephale). Percebemos logo de cara que o sacerdote é todo aquele que entregou sua vida a Jesus. Vejam os textos bíblicos e comprovem: Rm.12.1; 1Pe.2.5; Ap.1.5,6. Isso também vale para o erro de afirmação que o pastor é sacerdote de Deus. Porém não vamos entrar na questão, pois sairei no tema da mensagem.

O marido é o “cabeça” porque dentro dos propósitos divinos da criação do mundo e do ser humano, Deus deixou bem claro as responsabilidades do homem e estas lhe foram dadas antes da mulher (ver Gn.2.7-9, 15-17), são elas: Provedor da casa (cultivar) guardar sua moradia ou sua família e obedecer Palavra de Deus. A mulher entra como ajudadora neste ofício masculino. É só ler: “Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18 ARA)

2) Eu e minha casa serviremos ao SENHOR.

É uma frase bíblica, se encontra em Josué 24.15. Entretanto, não podemos levar esse texto para o lado profético. A princípio porque o livro de Josué encontra-se na categoria de livros históricos e não proféticos, depois porque não há no texto uma comprovação de Josué profetizando para o leitor e nem para o povo. O que temos é uma afirmação. Pelo  que vemos no presente texto é que Josué está se posicionando diante de toda a nação de Israel, e que se eles quisessem se envolver em cultos para outras divindades ele e sua família não fariam o mesmo. Ele e sua casa prestariam culto somente ao SENHOR. Josué está confirmando o texto de Deuteronômio 6.4, que é o grande texto da fé judaica. E ele não abriria mão disto. Nem ele, e nem sua família. Quando ele diz “minha casa” eles está mandando uma palavra direta para sua própria família, que eles não se envolveriam com outros deuses, obviamente ele seria o fiscal de fazer cumprir sua palavra.

Em momento algum este texto é voltado como promessa para os leitores da Bíblia. O apóstolo Paulo nem se quer pensou nele quando escreveu: “Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, como sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” (1 Coríntios 7.16 ARA). Podemos estender essa retórica de Paulo a todos os membros da família? Sim. Ele toma apenas um parente próximo como exemplo, mas é um texto que, na aplicação pessoal, abrange a todos os familiares. A Bíblia de estudo MacArthur comenta: “Alguns poderiam estar relutantes quanto ao deixar o cônjuge não salvo partir, o qual queria ir embora e estava criando discórdia no lar – achando que poderiam evangelizar o cônjuge, insistindo no propósito de vê-lo convertido. Paulo diz não haver essa certeza e diz ser melhor separar-se e ficar em paz (v.15), caso o companheiro não salvo queira acabar com o casamento desse modo”.

3) Ensina a criança no caminho em deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.

É também uma frase bíblica. Está em Provérbios 22.6. Entretanto, existem algumas verdades ocultas na frase, esquecidas no púlpito, que deveria ser apresentadas com a mesma intensidade que apenas a citação do texto. Vejamos: O contexto gramatical – está claro no verso anterior que Salomão fala do caminho do perverso. Isto é, vem da palavra hebraica “’iqqesh”, que quer dizer torcido, deformado, torto, perverso, pervertido. Uma pessoa sem qualquer responsabilidade moral. Daí ele diz para o leitor de seu texto que ensine a criança o caminho que ela deve andar, pois quando ela tiver mais velha não se desviará dele, isto é o provérbio. Ou seja, uma pequena frase educativa. Todavia, alguns enchem de interpretação profética. Como se alguém for instruído no caminho justo ele não vai se desviar dele. Ora, o texto não está classificado como livro profético, mas sim poético. A palavra donde se traduz para “criança” em algumas traduções é “na’ar” e essa palavra não é exatamente “criança” ela quer dizer: menino, moço, servo, jovem, criado. A palavra correspondente a criança é “yeled” ou “ben”. Então já não é aquilo que dizem por aí. O foco do texto não são os pais, mas toda pessoa que tem autoridade ou responsabilidade sobre outra. O texto é abrangente. Além do mais, suponhamos que o referido texto é assim mesmo do jeito como dizem. De quem é o mérito da salvação do menino? A Bíblia nos ensina que a salvação é pela graça de Deus (Ef.2.8,9; At.15.11). Todavia, a interpretação do jeito como alguns fazem do texto, deixa parecer que os pais de uma criança são determinantes na salvação dela. Alguns fazem correlação deste texto com Deuteronômio 6.7 que diz: “tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. Podemos fazer a correlação? Sim, mas ambos os textos estão dentro de um contexto histórico/cultural que se aplicado aos crentes do jeito que está, tira a responsabilidade da igreja de fazer discípulos dada pelo nosso Senhor Jesus a toda igreja (ver Mt.28.19,20) Que é heterogênea, diz o apóstolo Paulo: “porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. De sorte que, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:27-28 ARA). A igreja não é feita só de pais e crianças. Em Atos 15 encontramos os apóstolos e presbíteros resolverem desobrigar os cristãos dos preceitos da Lei fazendo-os observar apenas alguns pontos: “Pelo que, julgo eu, não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus, mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue.” (Atos 15:19-20 ARA). Sendo assim, como fica esta questão?

A forma como a criança do VT era tratada na religião é totalmente diferente como ela é tratada na religião do NT, e hoje. O tempo não me permite entrar nos detalhes, mas vejamos algumas diferenças religiosas: O ensino principiava no lar com os pais e prosseguia na sinagoga com os escribas. A criança aos cinco anos começava a ter contato com a Bíblia Hebraica. Cujo o livro primário a ser apresentado era Levítico, conforme ensinava Dt.6.7. Quando esta criança completava 10 anos tinha contato com mais outros textos importantes da fé judaica. E somente aos 12 eram considerados Bar Mitzvá (para menino) ou Bat Mitzvá (para menina), quer dizer “filhos do mandamento”. A partir desta idade os pais não tinham mais responsabilidade pelos atos dos filhos perante a lei divina. Eles se tornavam responsáveis por si mesmos diante de Deus. Neste tempo, os pequenos jovens tornavam-se membros efetivos da sinagoga. Por ocasião desta data importante na vida dos pequenos jovens, só então eram levados ao Templo. Conforme nosso Senhor Jesus foi (ver Lc.2.41,42). Vejam que até aos 12 anos a responsabilidade do ensino era totalmente dos pais, só depois disto que nas sinagogas, por meio dos escribas e rabinos, essa responsabilidade era transferida. Nos tempos do Novo Tesamento, Paulo cita os "paidagogos", em nossa tradução mais comum coloca-se "aio" (ARA). Vemos isso em Gálatas 3.24,25. Ele faz uma metáfora do aio com a lei divina. A palavra "paidagogos" quer dizer: "Tutor. um guardião e guia de meninos. Entre os gregos e os romanos, o nome era aplicado a escravos dignos de confiança que eram encarregados de supervisionar a vida e a moralidade dos meninos pertencentes a elite. Aos meninos não era nem mesmo permitido sair de casa sem a sua companhia até que alcançassem a idade viril".

Já no NT essa responsabilidade é colocada sobre a igreja deste o seu início. Logo no ministério de Jesus, as crianças eram levadas até ele: “Traziam-lhe também as crianças, para que as tocasse; e os discípulos, vendo, os repreendiam. Jesus, porém, chamando-as para junto de si, ordenou: Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus.” (Lucas 18.15-16 ARA). Contrariando o costume da época, que no comentário bíblico diz: “…cita um dito rabínico que dizia que dar atenção às crianças ‘era uma perniciosa perda de tempo… como beber muito vinho ou associar-se com os ignorantes’. A desumanização da criança, tão comum na antiguidade…”. (Mc.10.13, Dewey). Comentando sobre esse ato de Jesus, Champlin escreveu: “… ficou claro que a igreja deve cuidar das crianças, e que mesmo até crianças pequenas podem participar dos benefícios do ministério da igreja”.

Percebemos que as crianças no NT passaram a ser vistas com outros olhos e que a responsabilidade de ensinar o evangelho para elas é uma responsabilidade da igreja e não somente dos pais. Charles Spurgeon disse: “Por mais novo que um crente seja, ele deve fazer uma confissão aberta, uma confissão pública da sua fé e ser arrebanhado para fazer parte do rebanho completo de Cristo. Não estamos entre aqueles que desconfiam da piedade jovem. Jamais podemos duvidar daqueles que se arrependem enquanto têm pouca idade tanto quanto daqueles que se arrependeram tarde na vida. Dos dois, achamos estes últimos mais para serem questionados do que os primeiros: pois é maior a probabilidade que o medo egoísta de castigo e o temor da morte produzam uma fé falsa do que a mera infantilidade”. 

Apesar de não termos uma citação clara no NT sobre crianças na igreja, podemos concluir que, pela atitude diferente de Jesus no trato com elas, a igreja ficou com esse legado de agregá-las ao corpo de Cristo e de não mais deixá-las somente aos cuidados dos pais, mas desde a terna idade serem acompanhadas pela igreja. As cartas de igreja mencionam elas mais comparativamente: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos.” (1 Coríntios 14:20 ARA). Uma ordem expressa de Paulo para que sejamos como as crianças no que diz respeito a malícia.

4) Crê no Senhor Jesus e sará salvo tu e tua casa.

Temos aqui mais outra frase que é bíblica, encontra-se em Atos 16.31. Mas que é apresentada de maneira errada, gerando falsas expectativas em familiares cristãos de que os de sua casa também como ele serão salvos. Todavia, tal afirmação não encontra sustentação bíblica, nem se quer esta. Pois o livro de Atos dos Apóstolos não é um livro profético. Ele está classificado como um livro histórico. Sendo assim ventilada qualquer associação profética desta passagem para todos os leitores da Bíblia. Essa passagem não é uma palavra de Paulo dada a igreja, como ele faz costumeiramente em suas cartas. O livro de Atos dos Apóstolos foi escrito por Lucas, ele está narrando um acontecimento, e como tal, o fato de Paulo dizer ao carcereiro que ele e sua casa (família) seria salvos não se aplica a todos os cristãos, mas unicamente aquele homem. Tudo indica que Paulo profetizou sobre a vida daquele homem. Que bom fosse se tal bênção viesse sobre todos nós, mas não há apoio contextual para isso. Não passa de mais uma ilusão ministrada por palestrantes de culto de família ou seminário de família, visando gerar um clima de animação do público que lhe ouve. O comentário bíblico desmistifica isso em suas palavras: “… quando a salvação se oferece ao chefe de um lar, torna-se logicamente disponível ao restante do grupo familiar (inclusive aos dependentes e servos) […] A oferta, porém, segue as mesmas condições: devem ouvir a Palavra também (16.32), crer e ser batizados; a fé do próprio carcereiro não dá cobertura a todos eles”. (Atos 16.31. Marshall). Observem no contexto (v.32,31) que todos ouviram a Palavra de Deus, e consequentemente creram, e se batizaram. Notoriamente Paulo profetizou que isso aconteceria. Entretanto, o texto não fica dispensado de suas aplicações pessoais, pois nos mostra duas coisas: que a salvação é pela fé e que a pregação da Palavra de Deus poderá levar os nossos familiares a crerem. Pois, em sua carta mais adiante, o apóstolo Paulo fala: “De sorte que a fé [é] pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.” (Romanos 10:17 ARC).

CONCLUSÃO

Enfim, poderíamos falar sobre mais citações e jargões lançados neste eventos da família. Mas, vejo que este ensaio exegético possa trazer um alerta a todos, para que possamos ficar expertos e com prudência falarmos sobre o assunto. Enquanto que os ouvintes tomem cuidado com este tipo de mensagem, sejam mais criteriosos, examinem tudo, façam como os cristãos em Beréia que, ao ouvirem Paulo discursar, conferiam na Palavra:

"Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim". Atos dos Apóstolos 17.11


Fontes consultadas:

Comentário Bíblico de Marcos. Por Dewey M. Mulholland. Editora Vida Nova.
Comentário Bíblico de Atos. Por I. Howard Marshall. Editora Vida Nova.
Bíblia de Estudo MacArthur
O Mundo do Novo Testamento. Por H. E. Dana. Editora Juerp.
Léxico grego e hebraico de Strong. Bíblia Online módulo avançado. Editora SBB.
Pescadores de Crianças. Por C. H. Spurgeon. Editora Shedd.

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