sexta-feira, 16 de setembro de 2016

DÍZIMO, UMA POSIÇÃO BÍBLICA E EQUILIBRADA


Este texto tem por objetivo dirimir a problemática em torno do dízimo. O blog Anti-heresias tem procurado ao longo dos anos fazer uma apologia ao referido tema sob a perspectiva denominacional e dogmática; usando apenas a hermenêutica gramatical e teológica, sem, todavia, ir mais fundo na hermenêutica histórica/cultural. E quando decidi assim fazer, cheguei a assunto abaixo discorrido. Sei que muitos colegas pastores e líderes não vão apreciar totalmente o teor desse material, mas tenho o compromisso com as Escrituras. E disso não posso abrir mão, pois, embora seja um assunto secundário, as trevas da ignorância necessitam da luz da Palavra de Deus. E se posso fazer isso, eu não privarei aos necessitados a sua exposição.

O dízimo não pode passar de uma designação, uma metonímia de contribuição que devemos dar na igreja local. O que passar disso mergulhará num pântano sombrio da dispensação da Lei, onde quem não obedecia vinha sobre ele maldições (Ver Dt.28.15-45) e quem obedecia vinha as bênçãos. (ver Dt.18.2-13). É sob este contexto que as palavras do profeta Malaquias 3.8-12 ressoam: “Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. Todas as nações vos chamarão felizes, porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos”. Com isso, não damos conta ao fato de que, fora Jesus (Rm.5.19), ninguém foi cumpridor da lei (1Rs.8.46; 2Cr.6.36; Sl.14.1-3; Ec.7.20; Is.64.6; 1Jo.1.8; Rm.3.9, 10,23; Jo.8.7; Tg.3.2). Por isso o apóstolo Paulo escreve: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”. (Gl.3.10). 

Utilizar o dízimo com toda a bagagem e contexto do Antigo Testamento vai dar uma confusão enorme, é retroceder ao velho pacto, é decair da graça (Gl.5.4). E entrará em contradição com a dispensação da graça do Novo Testamento (Ef.2.8,9; Rm.11.6; 1Co.15.10). Que não começa pelo evangelho de Mateus, o Novo Testamento começa a partir do grito na cruz: “está consumado” (Jo.19.30). Tudo o que Mateus, Marcos, Lucas e João narram sobre a biografia de Jesus está no contexto da velha aliança. Paulo lança luz sobre as trevas de nossa ignorância: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. (Gl.4.4). Jesus nasceu e viveu sob o regime da lei, e veio para cumprir a mesma: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. (Mt.5.17). Portanto, qualquer citação dentro dos evangelhos sobre “dízimo” ainda estará no contexto da velha aliança e era associado ao judaísmo e não ao cristianismo. Exemplo disso também: o sábado, a circuncisão, os holocaustos e sacrifícios, o sacerdócio, etc.

O silêncio dos demais livros do Novo Testamento sobre o dízimo na igreja primitiva é relativo ao contexto histórico/cultural. É inevitável a conclusão de que o dízimo era dado no templo judeu por eles (caso fossem agropecuaristas), quer fossem judeus tradicionais ou fossem judeus cristãos. Todas as obras do Novo Testamento datam a época anterior ao ano 70 d.C. (ano da destruição do templo), exceto o Apocalipse de João. E foi desde a sua origem até o referido ano em que o dízimo era dado no templo judeu. Por isso não vemos nenhum dos apóstolos pedirem o dízimo para a igreja cristã. Todavia, existia uma forma de contribuição, servir com bens, donativos (do grego: diakoneo). Pois havia na igreja primitiva uma organização financeira que desde os tempos em que Jesus esteve com eles. Confira as seguintes passagens e logo perceberá que uma forma de contribuição paralela ao dízimo judaico era praticada pelos cristãos primitivos: Lucas 8.1-3; João 12.6; 13.29; Atos 4.34,35; 6.1; 1Timóteo 5.16-18; 2Coríntios 9.5-13. Percebemos nestas passagens que desde o ministério terreno de Jesus até a igreja primitiva havia uma contribuição paralela ao dízimo judaico que supria as necessidades da igreja cristã onde tinham destinos claros: o sustento do ministro, ajuda aos pobres, ajuda aos irmãos necessitados da igreja e as viúvas. Quando a igreja cristã saiu das sombras do judaísmo, pois até o ano 70 d.C., era considerada como uma seita do judaísmo, então as contribuições arrecadadas foram se estendendo para cobrir gastos no envio de missionários, construções de capelas, e demais gastos que existem hoje. Embora fossem fortemente combatidos pelos imperadores romanos, onde as capelas eram destruídas e muitos cristãos foram mortos, ainda assim, a igreja cristã subsistiu em catacumbas, reuniões nos lares, salões secretos alugados, até o ano 313 d.C., quando o imperador Constantino emitiu o edito de tolerância. Depois disto, a igreja cristã passou a ser uma religião autorizada pelo império podendo fazer suas atividades livremente.

Que fique claro isso: no tempo da igreja primitiva não havia a dádiva do “dízimo” para a igreja cristã, mas ao templo judeu, por judeus cristãos agropecuaristas (os gentios cristão ficaram desobrigados – At.15.28,29), dentro do contexto judaico e não se confundia com a dádiva de contribuição do ministério terreno de Jesus e nem da igreja cristã primitiva – onde todos participavam (cristãos judeus e gentios).

O termo “dízimo” veio a ser associado à igreja cristã a partir do século IV d.C. nas chamadas “Constituições Apostólicas” (citado na obra de David A. Croteau: “uma desconstrução do dízimo e uma reconstrução da doação pós-dízimo”, p.16). Sendo anteriormente mencionado por Cipriano (200 – 258 d.C.), todavia ele exortou a igreja a contribuir “como se fosse” o dízimo (a título de comparação) e não que como indicação de que os cristãos cumprissem literalmente semelhante à dádiva do Antigo Testamento (idem p.15). Cipriano acreditava que o dízimo (10%) era o mínimo do que deveria se contribuir voluntariamente para a igreja local. Trabalhando a consciência do cristão de participar das despesas da igreja cristã e não de se omitir diante destas.

Portanto, que todos nós possamos ser contribuintes fiéis voluntariamente e por gratidão a Deus, sem o peso da dispensação da lei e comprometidos com as despesas de nossas congregações. Não se importando com o uso da designação (dízimo, oferta, donativo, contribuição), mas com a necessidade da igreja local. Sendo gratos a Deus pelo que ele já nos tem dado. Não estimulando aos congregados a barganharem com Deus ou impondo-lhes a cultura do medo sob ameaças de maldição ou acusando-os de ladrões. Trazendo-lhes um falso evangelho, focado em méritos humanos e não na graça divina. É neste contexto que o apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas que, em seu primeiro capítulo, foi bem contundente: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. (Gl.1.8). Sentimentos refutados pelas Escrituras: “Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?” (Rm.11.35). “Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu”. (Jó 41.11). “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor”. (1Jo.4.18). “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica”. (Rm.8.33). “... porque Deus ama a quem dá com alegria”. (2Co.9.7b). Atitudes reprováveis daqueles que se dizem “pastores”, “bispos”, “presbíteros”, cognomes que classificam como autoridades constituídas pelo Espírito Santo (At.20.28) para “pastorear” o rebanho e não fazê-las se perverterem em sentimentos pecaminosos, doentios e de medo. Devemos trabalhar sentimentos dignos do novo pacto: amor, gratidão, doação, mordomia, generosidade, alegria, para que venham contribuir por motivações santas. O apóstolo Pedro exorta a liderança da igreja cristã: 

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória”. (1Pe.5.1-4).

Obras consultadas:

Bíblia Almeida Revista e Atualizada

Léxico grego Strong – Bíblia Online versão 3.0 módulo avançado

Manuscrito grego Textus Receptus - Bíblia Online versão 3.0 módulo avançado

Monografia: Dízimo – por João Bosco. Bacharel em Teologia.
https://pt.scribd.com/doc/96753612/DIZIMO-Joao-Bosco-Costa-Vieira 

Monografia: Desigrejados – por Daniel Durand. Bacharel em Teologia.
https://pt.scribd.com/doc/294462136/Monografia-sobre-Desigrejados

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Um comentário:

Ana Glacy Oliveira de Souza disse...

Bem abordado Pastor. Muitas vezes comento com o Ronny que é entendida a função das ofertas como participação pros gastos de toda origem que a igreja possui e além disso, as missões expressas nas Escrituras. Vejo que o problema gira muito em torno da palavra "dízimo", há as referências do A.T. e a ausência da Lei no N.T. passa uma sensação de desobrigação de se cumprir o "dízimo", e sendo que "não há lei", não há o dízimo nos moldes da lei mas há todo o gasto por trás das reuniões onde nos reunimos como corpo, há as missões, há a manutenção do prédio, enfim... É perceptível que as pessoas se incomodam muito com o dízimo (10%) mas não se importam com as ofertas ( ofertar segundo o seu coração), me vem a impressão que há um problema com a questão da nomenclatura, juntando-se a isso a extorsão por parte de líderes ditos religiosos, e percebo também que o dízimo se tornou o carro-chefe do movimento dos desigrejados que aborda o assunto num tom de descompromisso total, uma vez que defendem o cristianismo sem templos, a desistemalização e pra isso atacam o dízimo. Acredito que todos sabem que ventiladores ligados, aconselhamentos/esclarecimentos, missionários em campo, alimentar aos pobres gera custo e vai da maturidade de cada um contribuir com isso, infelizmente muitos irão se abster mas, acredito que até essa liberdade é necessária para que os não aderentes às ofertas sejam incentivados pela não-obrigatoriedade( a menos que seja obrigado e eu não tenha captado a msg )e possam optar pelo " por que não contribuir? " com o Pastor, com a congregação e com os irmãos que participam ativamente.